O lançamento de Naruto Ninja Cards nesta quinta-feira (20) marca um momento inédito para a franquia criada por Masashi Kishimoto: é a primeira vez que um app oficial de cards digitais chega ao mercado global. Mas o que torna essa história ainda mais surpreendente é que o projeto não saiu das mãos de uma grande publisher como a Bandai Namco, mas sim de um estúdio indie de 12 pessoas, sediado em Paris e Tóquio, que precisou de cinco anos, uma carta emocionada e muita persistência para convencer o próprio Kishimoto e a TV Tokyo a autorizarem o negócio.
O estúdio Sekai, fundado em 2021, começou com apenas quatro funcionários e um sonho: criar um app oficial de Naruto. O problema é que a indústria japonesa de jogos tem um histórico de parcerias de longo prazo com gigantes como a Bandai Namco, que detêm os direitos exclusivos para jogos de ação da franquia. Para contornar essa barreira, a equipe precisou de uma abordagem criativa: em vez de um jogo de luta 3D, propuseram uma "experiência gamificada de coleção de cartas" – uma distinção legal que permitiu ao estúdio operar em uma área não coberta pelos contratos existentes.
A batalha para obter a licença foi árdua. O CEO da Sekai, Samy Therain, passou um ano e meio vivendo no Japão para construir relacionamento com a TV Tokyo. Em janeiro de 2022, o estúdio conseguiu sua primeira reunião com a emissora. Depois de meses de negociações, no entanto, a equipe foi "fantasmeada" – a TV Tokyo simplesmente parou de responder. "Quando eles não respondem a um e-mail, você sabe que algo está errado. E foi o que aconteceu. Por um mês, não tivemos notícias", contou Therain ao Variety. Ele então voou novamente para o Japão, alugou um quarto de hotel em frente ao escritório da emissora e esperou com seus sócios. Foi quando descobriram o motivo do silêncio: Masashi Kishimoto, o criador de Naruto, não havia aprovado o projeto.
O que poderia ter sido o fim da história se tornou o capítulo mais emocionante. A equipe, que já se preparava para abandonar o projeto, decidiu fazer uma última tentativa. Therain escreveu uma carta pessoal a Kishimoto, comparando a jornada do pequeno estúdio à própria trajetória de Naruto no início do mangá – um grupo de outsiders que precisava provar seu valor. A analogia, profundamente ligada ao espírito do "nindo" (caminho ninja) do protagonista, tocou o autor, que acabou dando seu sinal verde para o aplicativo. "Nós demos nossa alma a este projeto. Meio milhão de fãs sentiram isso e apareceram antes mesmo que pedíssemos. O lançamento de hoje é deles", declarou Therain.
O resultado desse esforço é um aplicativo gratuito, disponível para iOS e Android, que chegou ao mercado após um soft-launch em fevereiro. Naquela ocasião, o jogo já havia alcançado 500 mil downloads, 93% deles vindos de busca orgânica, sem campanhas de marketing pesadas. O jogo apresenta mais de 100 cartas oficiais, com artworks inéditas e easter eggs para os fãs mais atentos, e um sistema de temporadas que acompanha a cronologia do anime: a primeira temporada cobriu o arco da Terra das Ondas, a segunda o Exame Chunin, e as próximas devem avançar para Shippuden e Boruto.
A jornada do Sekai, no entanto, está longe de terminar. Com um orçamento de desenvolvimento de apenas 1,5 milhão de euros – uma quantia minúscula para os padrões da indústria de games – o estúdio depende do sucesso do app para crescer e, quem sabe, no futuro, negociar uma ampliação dos direitos da franquia. O sucesso do projeto, que conta com investidores de peso como Mike Shinoda (Linkin Park) e o fundador do Reddit, Alexis Ohanian, já demonstrou que é possível, com paixão e persistência, furar o bloqueio de um dos maiores IPs do mundo.