O Festival de Cinema de Veneza recebe neste mês a estreia mundial de The End of Times (El fin de los tiempos), um ensaio fílmico experimental que mistura arquivos familiares, inteligência artificial e uma crítica contundente ao capitalismo para abordar o trauma geracional e a depressão . O longa-metragem colombiano, dirigido por Bibiana Rojas Gómez e Juan David Cárdenas Maldonado, estreia em 10 de setembro na competição da Venice Critics' Week, uma das mostras paralelas independentes do festival .
A trama acompanha Salomé, uma narradora fictícia que percorre cinco décadas de gravações caseiras de sua própria família em busca de respostas para a tristeza persistente de sua mãe . As imagens vêm do arquivo real da família de Cárdenas, registradas na casa de seus avós em Buga, Colômbia . Salomé tenta imaginar diferentes versões da vida da mãe, "mães alternativas" que poderiam ter escapado ao sofrimento. No entanto, cada caminho imaginado a leva de volta à depressão e ao mal-estar — uma condição que o filme interpreta como sintoma social, não apenas individual .
É nesse ponto que a IA entra como ferramenta narrativa. O filme utiliza inteligência artificial para gerar essas "alucinações" de vidas alternativas, e Salomé experimenta em primeira mão como é difícil conceber um mundo diferente, onde sua mãe pudesse encontrar algum sentido . O uso da IA, no entanto, não é celebrado como solução tecnológica, mas criticado como mais uma promessa de utopia que, do ponto de vista de países periféricos, expõe o lado mais obscuro da exploração e da miséria .
Os diretores definem a abordagem do filme como uma tentativa de politizar a doença mental. Em suas palavras, a depressão não deve ser interpretada apenas como um fenômeno psiquiátrico, mas como uma resposta social às condições materiais, econômicas e políticas do capitalismo contemporâneo — um sistema que eles descrevem como gerador de "exaustão física e emocional generalizada" . A estrutura do filme costura essa crítica com a história política da Colômbia e da América Latina, incluindo referências à repressão da ditadura de Julio César Turbay Ayala, à Operação Condor e ao atentado contra o voo da Avianca em 1989 .
O filme, que tem duração de 80 minutos e é descrito como um "documentário híbrido" que mistura arquivo, ficção, animação e IA, é uma produção da Bruma Cine, com coprodução de A Fuego Lento e Allegro Films, e tem distribuição internacional da Split Screen . O trailer exclusivo, obtido pelo The Hollywood Reporter, já revela uma estética que mistura imagens granuladas de arquivo com sequências perturbadoras geradas por IA, que ajudam a traduzir o peso de uma memória que se recusa a ser pacificada .
